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"A maldade humana não tem limites"; esta frase,
dita em tom de brincadeira por um cronista esportivo
gaúcho, em um programa de rádio sobre futebol, bem que
poderia resumir o espírito (de porco, diga-se de passagem!)
do execrável filme do diretor Eli Roth (quem??), "O
Albergue" ("Hostel"). Apresentado por Quentin
Tarantino, que por vezes, e ultimamente, parece meio
perdido nas suas "sátiras" ao abordar a violência no
cinema - apesar do excelente "Pulp Fiction",
que é referência e vem de uma grande fase anterior,
e "Kill Bill - Vol. 1" (o Vol. 2 do mesmo
é uma droga!) - , a historinha de "O Albergue" é
mais uma daquelas baboseiras que estamos cansados de
assistir: três jovens estudantes babacas (americanos,
é claro! Ah, mas um deles é islandês: exótico, não?)
em férias pela Europa vão visitar, "inocentemente" e
"bem referendados", um albergue no interior da Eslováquia
(ou seja, quase no fim do mundo!) que abriga várias
gatas do leste europeu a fim de fazerem muita sacanagem.
Nossos grandes heróis, claro, deslumbram-se ao chegarem
a tal estabelecimento, que à primeira vista mais parece
um harém das arábias: muitas mulheres bonitas dispostas
a satisfazerem seus "novos amigos". Tal atrativo, porém,
é um engodo, uma armadilha justamente para levar ao
cadafalso os ingênuos rapazes, que passam, então, a
partir da segunda metade do filme, a serem vítimas de
torturas das mais explícitas, como mutilações de partes
do corpo feitas por facas e serras elétricas, dentre
tantas outras bestialidades e aberrações. O resto não
é preciso contar: primeiro, porque é o mais do óbvio;
segundo, porque há que se ter estômago para tanto.
Muitas coisas incomodam em "O Albergue": a violência
é gratuita, expondo na telona dedos cortados, muito
sangue e um "sadismo" exacerbado dos torturadores, pessoas
que pagam para torturar os outros, e sentem prazer com
isso! Coloquei o termo "sadismo" assim mesmo, entre
aspas, para tentar salvar um pouco a pele do célebre
Marquês de Sade, de quem o termo é derivado, grande
preceptor do imoralismo na literatura filosófica do
século XVII, cujas obras foram mal compreendidas pelo
vulgo, o que inclusive se levou a tomar tal termo sob
uma concepção totalmente pejorativa. Sim, o prazer de
torturar é o que deveria ser o mote reflexivo de "O
Albergue": segundo consta, essas práticas existem
de fato, e com isso se pretenderia mostrar de forma
cruel e impiedosa a podridão humana. Mas, e daí? Se
isso existe mesmo, não choca mais ninguém hoje em dia
no mundo (a violência está tão banalizada que nada mais
impacta as pessoas!), pois não é novidade: tornou-se
a coisa mais normal do mundo mostrar estas barbaridades
na televisão, cinema e/ou internet. Obviamente, se segue
disto que isto NÃO deveria ser assim, de forma alguma.
Mas "O Albergue" consegue o improvável nestes
tempos de cólera: ele choca, sim, e muito, e deve ser
evitado de ser visto, mesmo que apenas por curiosidade.
É humanamente impossível não se afetar negativamente
pelo filme, se é que tal subproduto mereça um rótulo
tão nobre assim.
Diferente, em conteúdo, pois sua intenção é claramente
chocar e nada mais, de "clássicos escapistas nada
sérios" do gênero de terror como "Sexta
- Feira 13", "A Hora do Pesadelo" e "suspenses
sadistas" como o interessante e curioso thriller
"Jogos Mortais" e sua continuação, exibidos recentemente,
"O Albergue" é a negação da esperança, o retrato
triste e desolado de uma geração perdida e sem ideais
que se satisfaz com esses shows de horrores. Sim, o
que a juventude precisa é de aspirações mesmo; se as
antigas morreram, então há que se criarem novas, que
se dê reflexão e sonhos às futuras gerações, e não banhos
de sangue inúteis, escatológicos e nojentos jorrados
nas telas de cinema, que não dizem absolutamente nada,
ainda banalizando toda esta barbárie que está por aí
(as discussões sobre se estes filmes estimulam ou não
a violência e o que poderia ser a tal "maldade humana"
não serão feitas aqui, pois isso demandaria um tratado
sobre tais questões, de interesse social e cultural).
Os jovens precisam mesmo é de "Sociedade dos Poetas
Mortos", por exemplo, para despertarem dentro de
si coisas boas e verdadeiras, por mais piegas que isso
possa parecer, e terem como seus heróis gênios da literatura,
como por exemplo Rimbaud, Proust, Dostoiewski e Álvares
de Azevedo, e não dementes como Charles Manson e outros
desta espécie.
Não se hospede em "O Albergue", uma birosca,
uma pocilga detestável, suja e repugnante em todos os
sentidos. Chega dessa violência gratuita, estamos fartos
disso, onde ficou a criatividade dos nossos saudosos
roteiristas de filmes de terror e de suspense? Ah, e
eu ia me esquecendo: não merece estrela alguma essa
porcaria disfarçada de filme Z. Mas, como o editor
do site me lembrou que é preciso dar uma
cotação, segue então a mínima
(uma estrela), por puro formalismo.
O ALBERGUE (Hostel, 2005)
Direção: Eli Roth.
Elenco: Jay Hernandez, Derek Richardson, Eythor
Gudjonsson, Barbara Nadeljakova.
COTAÇÃO: *
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