CHEGA DE VIOLÊNCIA GRATUITA!
Ricardo Rangel
 
 

"A maldade humana não tem limites"; esta frase, dita em tom de brincadeira por um cronista esportivo gaúcho, em um programa de rádio sobre futebol, bem que poderia resumir o espírito (de porco, diga-se de passagem!) do execrável filme do diretor Eli Roth (quem??), "O Albergue" ("Hostel"). Apresentado por Quentin Tarantino, que por vezes, e ultimamente, parece meio perdido nas suas "sátiras" ao abordar a violência no cinema - apesar do excelente "Pulp Fiction", que é referência e vem de uma grande fase anterior, e "Kill Bill - Vol. 1" (o Vol. 2 do mesmo é uma droga!) - , a historinha de "O Albergue" é mais uma daquelas baboseiras que estamos cansados de assistir: três jovens estudantes babacas (americanos, é claro! Ah, mas um deles é islandês: exótico, não?) em férias pela Europa vão visitar, "inocentemente" e "bem referendados", um albergue no interior da Eslováquia (ou seja, quase no fim do mundo!) que abriga várias gatas do leste europeu a fim de fazerem muita sacanagem. Nossos grandes heróis, claro, deslumbram-se ao chegarem a tal estabelecimento, que à primeira vista mais parece um harém das arábias: muitas mulheres bonitas dispostas a satisfazerem seus "novos amigos". Tal atrativo, porém, é um engodo, uma armadilha justamente para levar ao cadafalso os ingênuos rapazes, que passam, então, a partir da segunda metade do filme, a serem vítimas de torturas das mais explícitas, como mutilações de partes do corpo feitas por facas e serras elétricas, dentre tantas outras bestialidades e aberrações. O resto não é preciso contar: primeiro, porque é o mais do óbvio; segundo, porque há que se ter estômago para tanto.

Muitas coisas incomodam em "O Albergue": a violência é gratuita, expondo na telona dedos cortados, muito sangue e um "sadismo" exacerbado dos torturadores, pessoas que pagam para torturar os outros, e sentem prazer com isso! Coloquei o termo "sadismo" assim mesmo, entre aspas, para tentar salvar um pouco a pele do célebre Marquês de Sade, de quem o termo é derivado, grande preceptor do imoralismo na literatura filosófica do século XVII, cujas obras foram mal compreendidas pelo vulgo, o que inclusive se levou a tomar tal termo sob uma concepção totalmente pejorativa. Sim, o prazer de torturar é o que deveria ser o mote reflexivo de "O Albergue": segundo consta, essas práticas existem de fato, e com isso se pretenderia mostrar de forma cruel e impiedosa a podridão humana. Mas, e daí? Se isso existe mesmo, não choca mais ninguém hoje em dia no mundo (a violência está tão banalizada que nada mais impacta as pessoas!), pois não é novidade: tornou-se a coisa mais normal do mundo mostrar estas barbaridades na televisão, cinema e/ou internet. Obviamente, se segue disto que isto NÃO deveria ser assim, de forma alguma. Mas "O Albergue" consegue o improvável nestes tempos de cólera: ele choca, sim, e muito, e deve ser evitado de ser visto, mesmo que apenas por curiosidade. É humanamente impossível não se afetar negativamente pelo filme, se é que tal subproduto mereça um rótulo tão nobre assim.

Diferente, em conteúdo, pois sua intenção é claramente chocar e nada mais, de "clássicos escapistas nada sérios" do gênero de terror como "Sexta - Feira 13", "A Hora do Pesadelo" e "suspenses sadistas" como o interessante e curioso thriller "Jogos Mortais" e sua continuação, exibidos recentemente, "O Albergue" é a negação da esperança, o retrato triste e desolado de uma geração perdida e sem ideais que se satisfaz com esses shows de horrores. Sim, o que a juventude precisa é de aspirações mesmo; se as antigas morreram, então há que se criarem novas, que se dê reflexão e sonhos às futuras gerações, e não banhos de sangue inúteis, escatológicos e nojentos jorrados nas telas de cinema, que não dizem absolutamente nada, ainda banalizando toda esta barbárie que está por aí (as discussões sobre se estes filmes estimulam ou não a violência e o que poderia ser a tal "maldade humana" não serão feitas aqui, pois isso demandaria um tratado sobre tais questões, de interesse social e cultural). Os jovens precisam mesmo é de "Sociedade dos Poetas Mortos", por exemplo, para despertarem dentro de si coisas boas e verdadeiras, por mais piegas que isso possa parecer, e terem como seus heróis gênios da literatura, como por exemplo Rimbaud, Proust, Dostoiewski e Álvares de Azevedo, e não dementes como Charles Manson e outros desta espécie.

Não se hospede em "O Albergue", uma birosca, uma pocilga detestável, suja e repugnante em todos os sentidos. Chega dessa violência gratuita, estamos fartos disso, onde ficou a criatividade dos nossos saudosos roteiristas de filmes de terror e de suspense? Ah, e eu ia me esquecendo: não merece estrela alguma essa porcaria disfarçada de filme Z. Mas, como o editor do site me lembrou que é preciso dar uma cotação, segue então a mínima (uma estrela), por puro formalismo.

O ALBERGUE (Hostel, 2005)

Direção: Eli Roth.

Elenco: Jay Hernandez, Derek Richardson, Eythor Gudjonsson, Barbara Nadeljakova.

COTAÇÃO: *