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"O Adversário", excelente filme da diretora francesa
Nicole Garcia, trata de uma história verídica ocorrida
na França, e que foi adaptada para o cinema: um homem
de meia idade, com uma vida aparentemente normal, bom
marido e cidadão exemplar, é um respeitado médico a
serviço da OMS (Organização Mundial de Saúde). Acima
de qualquer suspeita, o personagem interpretado pelo
ótimo ator francês Daniel Auteuil (que está se
tornando um ícone internacional do cinema francês,
na sucessão de Jean-Paul Belmondo e Gérard
Depardieu) tem uma vida regida pelos padrões normais
da sociedade, é visto pela família, amigos e colegas
de trabalho (??) como um profissional ético e dedicado
à prática da Medicina. Só há um pequeno detalhe nisso
tudo: o personagem de Auteuil não é médico coisa nenhuma,
e está enganando a todo mundo, principalmente a si mesmo,
há mais de quinze anos, fingindo que sai para o trabalho
todos os dias, que freqüenta seminários e congressos
de Medicina, assim como o seu pseudo-ofício nas práticas
do dia-a-dia.
Este é um breve resumo de uma história incrível, que
parece inverossímil inclusive, e o que mais impressiona,
além de outros elementos presentes que serão tratados
aqui, é que não é mera ficção: aconteceu mesmo, uma
pessoa enganou a tudo e a todos por esse tempo todo,
e ninguém desconfiou por um momento sequer. O falso
médico de Auteuil é o retrato de uma existência triste
e sombria, mas vazia e niilista antes de tudo em um
indivíduo atormentado: sua vida é uma mentira, e diferentemente
do Truman de Jim Carrey em "O Show de Truman", que tem
a sua vida invadida o tempo todo por câmeras ocultas
e outras nem tanto, e todos sabem a sua vida, menos
ele mesmo, o médico de mentirinha de "O Adversário"
é o único que tem conhecimento de tudo que ocorre à
sua volta, dessa grande mentira que a sua vida medíocre
representa. Como a frase que abre o filme ("Pior do
que ser desmascarado é não ser desmascarado") e a máxima
de Abraham Lincoln ("Pode-se enganar muitos por pouco
tempo, pode-se enganar poucos por muito tempo, mas não
se pode enganar todo mundo o tempo todo"), a história
de vida desse ser desprovido de identidade é um apelo
ao niilismo, à redução a nada, à auto-flagelação interior
de uma mente que perdeu-se pelos confins do seu próprio
mundo à parte. Não era intenção do mesmo fazer com que
as coisas chegassem a esse ponto: mas, como fala Dante
Alighieri na "Divina Comédia", que "a estrada do inferno
está pavimentada de boas intenções", a mentira "pequena",
que começou com o abandono do curso de Medicina no segundo
ano (o que houve para traumatizá-lo a esse ponto é uma
grande incógnita, e uma das grandes questões a se analisar
e pensar sobre a condição e natureza humana desse indivíduo),
mas que continuou freqüentando as aulas para aparentar
ser um aluno regular ("só" não prestava os exames),
e prosseguiu com o posterior "emprego" que consegue
na OMS depois de "formado", tomou proporções tamanhas
que ele perdeu o controle e a razão (!?), literalmente.
Um bom filme, com ótimas atuações, especialmente de
Auteuil, como já foi referido, com um roteiro bem estruturado
e uma história igualmente bem narrada, com a introspecção
do personagem principal bastante centrada na sua mente
doentia e que faz o espectador ensimesmar-se no seu
universo sombrio e vazio, "O Adversário" trata do exemplo
clássico de um psicopata real, que resolve o conflito
inevitável do encontro aterrorizante do seu inefável
mundo inconsciente, conjunto de todas as suas mentiras,
com a dura realidade de fora da sua mente, em que nada
do que criou é real. A consciência moral que daí surge
é amoral para o falso médico, mas extremamente imoral
para nós (afinal, pelos nossos padrões, ele deveria
ser punido por tudo o que fez: a enganação toda adicionada
à bárbarie que utiliza como a solução para essa insanidade
toda; mas a sua própria vida já não seria um castigo,
o purgatório existencial, inferno de Dante?).
Mas ainda bem que Lincoln tinha razão... (ou não???).
O ADVERSÁRIO (L'Adversaire, 2003)
Direção: Nicole Garcia.
Elenco: Daniel Auteuil, Geraldine Pailhas, François
Cluzet, Emmanuelle Devos.
COTAÇÃO: ****
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