CONTRA SI MESMO
Ricardo Rangel
 
 

"O Adversário", excelente filme da diretora francesa Nicole Garcia, trata de uma história verídica ocorrida na França, e que foi adaptada para o cinema: um homem de meia idade, com uma vida aparentemente normal, bom marido e cidadão exemplar, é um respeitado médico a serviço da OMS (Organização Mundial de Saúde). Acima de qualquer suspeita, o personagem interpretado pelo ótimo ator francês Daniel Auteuil (que está se tornando um ícone internacional do cinema francês, na sucessão de Jean-Paul Belmondo e Gérard Depardieu) tem uma vida regida pelos padrões normais da sociedade, é visto pela família, amigos e colegas de trabalho (??) como um profissional ético e dedicado à prática da Medicina. Só há um pequeno detalhe nisso tudo: o personagem de Auteuil não é médico coisa nenhuma, e está enganando a todo mundo, principalmente a si mesmo, há mais de quinze anos, fingindo que sai para o trabalho todos os dias, que freqüenta seminários e congressos de Medicina, assim como o seu pseudo-ofício nas práticas do dia-a-dia.

Este é um breve resumo de uma história incrível, que parece inverossímil inclusive, e o que mais impressiona, além de outros elementos presentes que serão tratados aqui, é que não é mera ficção: aconteceu mesmo, uma pessoa enganou a tudo e a todos por esse tempo todo, e ninguém desconfiou por um momento sequer. O falso médico de Auteuil é o retrato de uma existência triste e sombria, mas vazia e niilista antes de tudo em um indivíduo atormentado: sua vida é uma mentira, e diferentemente do Truman de Jim Carrey em "O Show de Truman", que tem a sua vida invadida o tempo todo por câmeras ocultas e outras nem tanto, e todos sabem a sua vida, menos ele mesmo, o médico de mentirinha de "O Adversário" é o único que tem conhecimento de tudo que ocorre à sua volta, dessa grande mentira que a sua vida medíocre representa. Como a frase que abre o filme ("Pior do que ser desmascarado é não ser desmascarado") e a máxima de Abraham Lincoln ("Pode-se enganar muitos por pouco tempo, pode-se enganar poucos por muito tempo, mas não se pode enganar todo mundo o tempo todo"), a história de vida desse ser desprovido de identidade é um apelo ao niilismo, à redução a nada, à auto-flagelação interior de uma mente que perdeu-se pelos confins do seu próprio mundo à parte. Não era intenção do mesmo fazer com que as coisas chegassem a esse ponto: mas, como fala Dante Alighieri na "Divina Comédia", que "a estrada do inferno está pavimentada de boas intenções", a mentira "pequena", que começou com o abandono do curso de Medicina no segundo ano (o que houve para traumatizá-lo a esse ponto é uma grande incógnita, e uma das grandes questões a se analisar e pensar sobre a condição e natureza humana desse indivíduo), mas que continuou freqüentando as aulas para aparentar ser um aluno regular ("só" não prestava os exames), e prosseguiu com o posterior "emprego" que consegue na OMS depois de "formado", tomou proporções tamanhas que ele perdeu o controle e a razão (!?), literalmente.

Um bom filme, com ótimas atuações, especialmente de Auteuil, como já foi referido, com um roteiro bem estruturado e uma história igualmente bem narrada, com a introspecção do personagem principal bastante centrada na sua mente doentia e que faz o espectador ensimesmar-se no seu universo sombrio e vazio, "O Adversário" trata do exemplo clássico de um psicopata real, que resolve o conflito inevitável do encontro aterrorizante do seu inefável mundo inconsciente, conjunto de todas as suas mentiras, com a dura realidade de fora da sua mente, em que nada do que criou é real. A consciência moral que daí surge é amoral para o falso médico, mas extremamente imoral para nós (afinal, pelos nossos padrões, ele deveria ser punido por tudo o que fez: a enganação toda adicionada à bárbarie que utiliza como a solução para essa insanidade toda; mas a sua própria vida já não seria um castigo, o purgatório existencial, inferno de Dante?).

Mas ainda bem que Lincoln tinha razão... (ou não???).

O ADVERSÁRIO (L'Adversaire, 2003)

Direção: Nicole Garcia.

Elenco: Daniel Auteuil, Geraldine Pailhas, François Cluzet, Emmanuelle Devos.

COTAÇÃO: ****