PASTICHE NOSTÁLGICO
Ricardo Rangel
 
 

"À Prova de Morte" ("Death Proof", 2007), de Quentin Tarantino, é a segunda parte do projeto intitulado "Grindhouse", criado, escrito e produzido conjuntamente com seu "brother" Robert Rodriguez, que tem no filme B "Planeta Terror" a outra parte desta empreitada cinematográfica realizada a quatro mãos, cujo desmembramento no mercado externo ao americano resultou nestes dois filmes. Tarantino retoma, em "Death Proof", o seu estilo clássico satírico, parodiando produções dos anos 70 especialmente, e seu filme resulta em um divertido, cômico e muito bem realizado pastiche que nos brinda com revivals das comédias ingênuas e filmes B da época supracitada, juntamente com os cortes súbitos e a cara de produção mal-feita na película, propositadamente colocada para dar uma estética realista-retrô na obra.

Se em "Bastardos Inglórios", o diretor mais cult e pop das últimas gerações pretendeu, até com certa dose de pretensão, ter realizado a sua "obra prima" (como fica bastante claro na cena final, em que o personagem de um Brad Pitt deveras caricato deixa a sua "marca" no rosto do oficial nazista), em "À Prova de Morte" o estilo é tarantinesco por natureza: violência estilizada, erotismo e sensualidade feminina bem explorados mas de forma alguma gratuitos, como se vê no decorrer da trama, e a presença de uma linguagem chula e verborrágica, uma marca característica sua, presente também, em "Pulp Fiction" e em "Kill Bill Vol. 2" , só para ficar nesses exemplos. O excesso de verborragia por vezes atravanca o decurso dos filmes de Tarantino, os tornando heterogêneos na narrativa, que se fragmenta demais por vezes, como no caso de Inglorious Basterds e da segunda parte de "Kill Bill" , mas este não é o caso em "À Prova de Morte" - pelo menos não a ponto de "quebrar o ritmo" do filme, que segue uma determinada homogeneidade.

A alcunha de pastiche que atribuo à obra de Tarantino nada tem de pejorativa, muito pelo contrário: é um mérito todo seu fazer os recortes e as homenagens justas e pertinentes à história do cinema de ação alternativo ou relegado. Aqui ele assinala isto por exemplo aludindo ao clássico "Correndo contra o Destino", às corridas de carro dos anos 70 com seus modelos turbinados, às piadas sobre a relação da máquina com o órgão sexual masculino, etc., dentre outras, não perdendo com isso a sua marca de originalidade que o caracteriza com o seu estilo peculiar. A trilha sonora é excelente e casa com o filme como uma luva, em todas as suas cenas, o tornando agradável do início ao fim, um entretenimento muito bacana, inteligente e bem montado.

Double "Stuntman" Mike (Kurt Russell, ótimo em cena, mantendo a boa forma e o estilo cool que o consagrou) é um dublê psicopata que se diverte indo aos bares flertar com garotas embriagadas e lançando a isca para o objetivo final de sua caça: o alcance de seu prazer as torturando com seu Chevy Nova negro, envenenado e superpotente. Detalhe: Mike bebe apenas água, quem entorna mesmo são as "minas". Tal estratégia é utilizada para atrair o belo trio capitaneado pela linda e sensual Vanessa Ferlito (como Arlene "Butterfly"), que brinda o espectador com seus lábios carnudos, seu olhar penetrante e suas curvas bem torneadas na dança de colo enlouquecedora que a mesma faz para o maníaco dublê.

Na segunda parte do filme, outro trio é encalçado por Mike, desta vez contando com a não menos maravilhosa e estonteante Rosario Dawson (como Abernathy) e de Mary Elizabeth Winstead trajada como líder de torcida - Tarantino usa e abusa de recursos fetichistas: roupas justas, pés para fora do carro, danças sensuais -, e a pecha road movie não é exagerada nem descabida aqui, pois é no que o filme transforma-se na sua meia hora final, um epílogo digno do bem feito e satirizado pastiche de Tarantino, uma espécie de homenagens diversas. Vai de "Encurralado" de Spielberg (sim, a sequência final é "Encurralado" na veia, num duelo de tirar o fôlego entre o Chevy negro de Mike e o Dodge Challenger branco das minas "mucho locas"...!!!), passando pelos fetiches bizarros de "Crash - Estranhos Prazeres" de David Cronenberg, pois a questão desta tara comportamental é bastante explorada como referência necessária, indo até "Thelma & Louise" - a redenção feminina em grande e alto estilo na caçada ao seu algoz torturador e maníaco sexual.

Tarantino, enfim, homenageia definitiva e justamente as mulheres em "À Prova de Morte", isso bem ao seu estilo - ácido, irreverente, provocador, paródico. O que parecia ser um manifesto ardente e machista do ex-atendente de locadora "bastardo inglório" que virou cineasta pop cultuado pelas recentes gerações, mostra-se, ao final, exatamente o oposto: é uma ode ao sexo nem tão frágil assim, como já mostrara, afinal, "A Noiva" de Uma Thurman em "Kill Bill" em sua vingança redentora...



À PROVA DE MORTE (Death Proof, EUA, 2007)

Direção: Quentin Tarantino.

Elenco: Kurt Russel, Vanessa Ferlito, Rosario Dawson, Rose McGowan, Mary Elizabeth Winstead.

Cotação: ****