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FORMULISMO
DE UM HOMEM SÓ
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Alexandre
Mesquita
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Você se empenha para contar uma piada - e vai muito
bem - até que, por uma pequena confusão de raciocínio,
deixa escapar o final antes de terminá-la. Conheço teorias
que vinculam a emoção do riso à surpresa. Portanto se
não há mais surpresa, não há mais graça. Discordo. Nem
só do inusitado vive o riso. Há piadas que posso escutar
várias vezes e chorar de tanto rir, desde que quem as
conte saiba o que está fazendo. Situação parecida se verifica
em À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness,
EUA, 2006). Não estou trabalhando nenhuma insinuação de
que o filme é uma piada. Não, não. Só quero dizer que
é um filme de final muito previsível, e corre o risco
de ter o mesmo final de uma piada mal contada.
Já começa convocando um olhar rígido devido ao formulismo
que usa para comover. Um pai abandonado pela esposa a
correr, correr, correr para cuidar do filho, e a passar
fome, e não ter onde morar, e dormir em banheiros de metrô...
ser atropelado, preso, levado à miséria pelo imposto de
renda. Só faltou comer o pão que o diabo amassou, recheado
com a minha receita de pimenta com cacos de vidro. Com
todo o respeito, em matéria de fazer a platéia não tirar
o olho da tela sem muito esforço essa tática não é mais
nobre do que a de um filme pornô. Insisto, não estou querendo
avacalhar o filme.
A única esperança desse pai para a felicidade é conseguir
uma vaga de emprego que ele disputa com dezenas. Ninguém
faz filmes de pessoas como o José da Marmita Fria, que
começa derrotado e termina derrotado. Se num filme o personagem
começa olhando para cima para falar com a parte de trás
do cachorro e mesmo assim luta por seu sonho todo concentrado
em uma única chance, o final é óbvio.
Diz ser baseado em fatos reais. Chris Gardner (Will Smith)
é um vendedor de scanners de alta densidade, apetrecho
médico concorrente do raio-X. Mas custam o dobro do preço.
Chris investiu tudo que tinha num monte desses aparelhos,
contando que seriam a revolução. Batendo de hospital em
hospital, ele descobre que os médicos não gostam de revoluções
caras, e a grana começa a faltar, causando uma série de
inconvenientes no dia a dia com a esposa Linda (Thandie
Newton, bastante convincente). O filho de oito anos Christopher
(Jaden Smith, filho de Will também na vida real)
fica distante dos problemas financeiros e do relacionamento
dos pais. Até que Linda, cansada da falta de dinheiro,
da ameaça de despejo e da falta de perspectiva do marido,
muda-se para Nova York, deixando pai e filho em São Francisco
no início da década de oitenta, no olho do furacão da
recessão econômica da era Reagan. Caminhando na rua, Chris
encanta-se com o carro esportivo de um corretor de bolsa
e acha que tem condições de fazer o que ele faz. É bom
em matemática, em relacionamento com pessoas que não sejam
sua esposa, e em resolver cubos mágicos (por rotações
em vários eixos, o objetivo do brinquedo é deixar cada
lado do cubo de uma cor só), febre na época. Ele se candidata
ao cargo de estagiário de corretor numa grande empresa.
São duas etapas. Ser escolhido para o estágio (concorrem
centenas) e fazer o estágio (concorrem duas dezenas e
meia), onde passará seis meses suando no mais puro capitalismo
selvagem, aprendendo as artimanhas de puxar o saco de
chefes e magnatas do dinheiro. Mas significa também seis
meses sem receber um único tostão, tendo um filho para
sustentar. E bem no início do filme, Chris deixa claro
a importância para ele da relação pai e filho. Ele, que
conheceu o próprio pai somente aos vinte e oito anos,
jurou que, se tivesse filhos eles saberiam que têm um
pai. Portanto, é a história de ir atrás de um sonho e
manter um filho.
Algumas passagens são de caminhos menos criativos na arte
de arrancar emoções, ou seja, piegas. Outras parecem forçadas,
como a desistência muito fácil da mãe. Não fica claro
se ela era problemática ou ausente. Para mim, é uma personagem
que nasceu para ser conivente com a intenção do filme,
que é mostrar o pai criando o filho na raça (Pronto,
sua parte de esposa e mãe é só para mostrar que antes
havia uma família, que acabou. Pode sair correndo daqui,
rápido, rápido!). Outra coisa excessiva foi a correria
do personagem ao longo do filme. Tudo bem que era necessário
passar a idéia do sacrifício inacreditável dele, mas três
ou quatro corridas pelas ruas ou no metrô já seriam suficientes.
Quatro voltas e meia em torno da Terra, convenhamos...
Mas há momentos bonitos, água com açúcar para pai e mãe
se identificar e dizer: me emocionei, escapou... desculpe.
Como a máquina do tempo, a perda do Capitão América,
abraço na cantoria Gospel.
Curiosidade. Will Smith participou como ele mesmo do filme
Menina dos Olhos, de Kevin Smith, onde um pai,
interpretado por Ben Affleck, cuida sozinho da filha,
pois perdeu a esposa no parto, e o bem-sucedido emprego
como relações públicas exatamente por dizer a uma multidão
de repórteres que Will Smith era um cara sem talento que
não chegaria a lugar nenhum. Problema, ele era o relações
públicas de Will Smith. Oito anos depois, quando Affleck
está na sala de espera, aguardando uma entrevista de emprego
para sair do ostracismo senta ao seu lado o cara que ele
mais odeia, o tal Smith, que não reconhece seu antigo
RP, puxa assunto e fala da alegria de ser pai, inclusive
mencionando o filho que agora também é colega. Acaba por
modificar para melhor a postura do personagem de Affleck
com a filha.
À Procura da Felicidade, do diretor italiano Gabriele
Muccino (O Último Beijo), pode ser acusado tranquilamente
de formulista, e colocado bem no meio do "ame-o ou deixe-o",
onde muitos diriam que é seu devido lugar. Quem não tiver
engajamento, como papais e mamães, estará mais imune e
poderá colocar o filme num extremo. Diferentes, as forças
que direcionam minhas convicções no momento o conduzem
ao outro extremo. Que filme é esse, então? Um que tem
dono. Will Smith. Ele já foi indicado ao Oscar por Ali.
Mas interpretar a vida de alguém como Muhammad Ali, tão
único, tão cheio de trejeitos, onde qualquer um que o
imita deixa o recado, sinceramente não quer dizer muito
coisa sobre ser bom ator. É necessário um teste de fogo,
pegar um personagem de todo mundo, da vida comum, de pessoas
não-ficcionais, e com ele fazer história. Um grande momento
na carreira de Will é o que temos aqui. Elegante e sincero,
incorporando o personagem "exército de um homem só", tão
comum em qualquer lugar onde os recursos são poucos, e
as carências, muitas.
No óbvio e aguardado momento final, é fácil ver passar
nos olhos de Chris Gardner/Will Smith todas as dificuldades
para chegar ali. Em câmera lenta, dentro dele uma bomba
em vez de explodir decidiu sorrir. Isso fez a emocionante
diferença. Da piada já conhecíamos o final, mas havia
alguém que soube contá-la. E fez rir de tanto chorar.
À PROCURA DA FELICIDADE (The Pursuit of Happyness,
EUA, 2006)
Direção: Gabriele Muccino.
Elenco: Will Smith, Jaden Smith, Thandie Newton,
Kurt Fuller, Brian Howe, James Karen.
COTAÇÃO: **** |
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