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*Artigo originalmente postado no dia 17
de Julho de 2009 no blog "Ebulição"
(http://hablar.zip.net)
George Cukor sempre enfrentou "problemas artísticos"
em Hollywood. Um dos mais conhecidos foi o seu afastamento
da direção de ...E o vento levou (1939), entregue
a Victor Fleming. Consta que o episódio contou com grande
participação do alienado e prepotente Clark Gable, que
costumava fazer piadas de mau gosto sobre a homossexualidade
do diretor.
Seu reconhecimento, embora a acusação de que era autor
de "filmes de mulheres" o acompanhasse toda a vida,
veio com os filmes que dirigiu para a MGM. Neste estúdio,
encontraria certa liberdade, e sua capacidade criativa
seria vista e aguardada por um público que se familiarizaria
com a elegância e a sensibilidade de sua direção. O
clima burguês, pomposo, com diálogos equilibrados que
não eram nem pop nem poéticos, antecederia, de certo
modo, a atmosfera de Luchino Visconti, e é esta atmosfera,
inserida em opressão psicológica, que vemos se arrastar
em À meia luz (1944).
Trata-se de uma história de casamento por interesse,
aonde a personagem feminina (elemento típico na filmografia
do diretor), é explorada e valorizada por sua força
e delicadeza.
O roteiro é baseado na peça teatral de Patrick Hamilton,
e conta a história de Paula Alquist, sobrinha de uma
famosa cantora de ópera assassinada, e Gregory Anton,
pianista pretendente e futuro esposo de Paula. Após
o casamento, Gregory passa a torturar psicologicamente
sua jovem esposa, fazendo-a acreditar que está enlouquecendo.
A história passa a tomar um rumo diferente, embora embebida
em suspense, quando o investigador Brian Cameron passa
a desconfiar de Gregory por manter Paula presa em casa,
alegando sua incapacidade de saúde para receber a fazer
visitas e por algumas atitudes estranhas (e noturnas)
que o cruel esposo passa a tomar. Com a ajuda de um
amigo policial e da empregada meio surda, Cameron guia
a trama para o esperado final quase-feliz...
O filme é medíocre mas consegue o bom clima dramático
com as excelentes atuações dos poucos atores que o protagonizam.
Paula Alquist é vivida pela sueca Ingrid Bergman, que
provida de grande pesquisa para trazer à tona a personagem,
consegue encená-la primorosamente em seus bem definidos
três estágios de comportamento: o inicial, sofrido e
logo depois, feliz; o central, progressivamente histérico;
e o final, agressivo e enfim, calmo. Gregory Anton é
encenado pelo francês naturalizado americano Charles
Boyer. O ator dá a personagem toda a sua força e orgulho.
Consegue nuances românticas e agressividade perversa
em questão de segundos, passa do leão que ataca à presa
acossada no final do filme, mas sempre com o ar ferino
e superior, como na cena final, quando passa algemado
pelas empregadas da casa. Brian Cameron recebe fôlego
com o excelente Joseph Cotten, o melhor amigo de Orson
Welles em Cidadão Kane (1941). Cotten
mantém a personificação gentil-inabalável mesmo quando
deve ser violento (como na cena em que está com o "vestido
de Theodora" nas mãos e revela saber os passos do assassino
desde há dez anos). George Cukor tece as relações entre
as personagens de forma suave e insere um escape, mesmo
mínimo, com o humor negro na "fixação assassina" da
Senhora Thwaites, sempre preocupada em saber coisas
sobre assassinatos e sobre a vida dos seus vizinhos.
O filme é claustrofóbico desde o seu início, e a decisão
de realizá-lo totalmente em estúdio contribuiu para
a sensação de prisão domiciliar. A direção de arte fixou
nas paredes e espalhou pelo set toda a sorte
de quadros, plantas, papéis, roupas, baús, mesas, cadeiras,
tapetes, livros e estantes. Não existem ângulos vazios.
Mesmo o cenário "externo": a praça, as ruas ao redor
da casa, a feira na Itália, tudo está cheio de elementos
que preenchem a lente da câmera.
Assim também é com os figurinos, e nesse sentido, também
se aproximam da atmosfera viscontiana. As mulheres sempre
elegantes (mesmo Nancy, a empregada e Elizabeth, a cozinheira),
com longas e brilhosas peças, chapéus vitorianos, sombrinhas
e jóias. Tudo é demasiado, tudo está abarrotado de coisas:
a mente de Paula com várias ideias sobre sua possível
loucura, o sótão com toda a antiga mobília da casa e
as centenas de coisas da falecida Sra. Alquist, Nancy
com seus diversos namorados, o museu da Torre de Londres
saturado de peças de tortura, o "vestido de Theodora"
totalmente composto pelas lendárias jóias do czar, Gregory
com seus diversos planos a fim de arrastar Paula para
o hospício. Em uma análise psicanalítica, veríamos retratos
do inconsciente, de histeria e uma patologia ou outra.
Quadro a quadro, a montagem objetiva e inteligente consegue
harmonizar os diversos ângulos. Entre um plano médio
e outro, alguns close-ups e descritivos planos gerais.
Assim, o filme alcança a força leve de uma narrativa
bem estruturada. O tempo dos takes é rígido,
preciso. Quando necessário mostrar eventos fora da linha
central desenvolvida (as saídas noturnas de Gregory
e a articulação da investigação de Brian), vemos uma
alternância entre planos paralelos e simultâneos. O
espectador é condicionado a esperar o "quadro do sofrimento",
e quando este aparece, espera ver o que ocorre fora
dele. O efeito narrativo alcança sua completude quando
as pequenas partes soltas começam a se entrelaçar e
o aparentemente inofensivo Brian entra em ação e fixa
as intenções sócio-fílmicas e os clichês que faltavam,
embora bem trabalhados.
Joseph Ruttenberg assume com segurança a fotografia
da obra. As oscilações da lamparina (o filme se passa
em 1875), os flashes de luz do sótão, a sala
de estar e o quarto a cada perturbação de Paula, seu
rosto, o salão de concertos da amiga da falecida Sra.
Alquist, o hotel em Como, o trem, tudo recebe rigorosa
inserção de luz, e o efeito plástico obtido, por vezes,
é de que realmente tudo faz parte de um devaneio.
A música é simples, dramática, com alguns belos solos
de piano, que acompanham, subserviente, a mise-en-scène.
O filme tem ritmo interno e externo usados de forma
ágil e harmoniosa. Os diálogos não são rebuscados, e
não estão presentes nem em demasia, nem em escassez.
A película, no entanto, caminha para um pré-definido
desfecho, e talvez por isso, tenha sua força artística
diminuída, todo o esforço formal-interno rendido aos
pés da normas do estúdio-sociedade estadunidense.
Apesar de esteticamente belo, a forma externa e filme
acabado são resultados da Erudita-Cartilha-MGM. Tudo
caminha para a vitoriosa defesa de Paula, a boa burguesa
oprimida pelo mau burguês. Do meio do filme para frente,
o que realmente empolga é a interpretação estonteante
de Ingrid Bergman, que não se perde em nenhum momento,
ao contrário, na última cena, é mais bela, cruel e frágil
do que no filme inteiro.
À meia luz não é um grande filme. É uma obra
mediana, empolgante e de conteúdo forte, bem interpretado
e plasmado, mas com o vácuo de um quê auteur,
como muita coisa "que tem tudo para ser boa" em Hollywood.
À MEIA LUZ (Gaslight, EUA, 1944)
Direção: George Cukor.
Elenco: Ingrid Bergman, Charles Boyer, Joseph
Cotten, Dame May Whitty, Angela Lansbury, Barbara Everest,
Edmund Breon.
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