30 DIAS DE NOITE
Alexandre Mesquita
 
 
Não estou cometendo a loucura de afirmar que 30 Dias de Noite (30 Days of Night, Nova Zelândia / EUA, 2007) rivalize sequer com a unha do pé de Os Pássaros, de Hitchcock, mas a sua idéia é a mesma. Provocar dramas humanos a partir do confinamento, graças à presença de um mal que surge sem dizer de onde veio, nem para onde vai.

Se o mundo fosse um corpo, a cidade Barrow ficaria naquela parte do corpo que na linguagem chula está associada a distâncias muito grandes. Uma cidadezinha de trezentos e cinqüenta habitantes, reduzida pela metade no inverno devido à alta latitude do Alasca. Sem Sol por trinta dias - muita gente foge e só volta com o Astro-Rei. Numa dessas fugas de cidadãos, um punhado de novos personagens chega sorrateiro a Barrow. Vampiros. Sem Sol por trinta dias - literalmente um prato cheio para eles. Para enfrentá-los, o Xerife Eben Oleson (Josh Hartnett) e sua ex-esposa Stella Oleson (Melissa George), obrigados a lutar juntos novamente, mais os poucos sobreviventes.

Não é esclarecido porque o casal estava separado. O transcorrer da trama faz os motivos aparecerem sutilmente. Tal dosagem bem trabalhada de informação mostra que há cérebro por trás do roteiro de Steve Niles, Stuart Beattie e Brian Nelson, que faz um jogo com a revista em quadrinhos homônima, escrita pela próprio Steve Niles, com a bela e macabra arte de Ben Templesmith, ora de fidelidade, ora de autonomia. A sensação é de que as escolhas dos roteiristas e do diretor David Slade (Sam Raimi de Homem Aranha, cogitou dirigir o filme, mas por outros compromissos acabou como produtor dele) foram corretas. A seqüência final, por exemplo, contada a partir do confronto de Eben com os vampiros, embora exista algo parecido em Van Helsing, mostra sintonia total com a revista em quadrinhos (em contrapartida, na HQ o casal não está brigado, e há uma explicação rasteira sobre porque os vampiros estão ali, gancho para uma continuação, que ocorreu nos gibis).

Por falar nos vampiros, eles são pura maldade. A câmera é acelerada em seus ataques, mostrando-os como criaturas sobrenaturais terrivelmente fortes, animalescas, em overdose de bestialidade. Em certa passagem, utilizam uma vítima adolescente como isca para capturar os humanos escondidos. A estratégia não funciona. Eles cercam a menina, batem nela, a maltratam, só depois trucidam - o que não impede essas malévolas criaturas de estilisticamente desfrutarem de certa originalidade, nas roupas, na dentadura (bem mais agressiva que os tradicionais caninos de Christopher Lee) e no idioma. O líder veste terno preto e guarda semelhanças com cantores pop/dark, reforçando o clima gótico dos quadrinhos.

O jogo é de gato e rato. Nada pior do que você saber que está sendo perseguindo, e não poder sequer respirar, pois o assassino pode surgir em segundos. Só que você está desesperado para ir ao banheiro, mas agüenta no osso porque quer sobreviver. O problema é persuadir o parceiro ao lado fazer o mesmo. A atmosfera sombria tem tudo a ver com o sobrenatural, mas é ainda mais a ver com o medo humano de conviver com o próximo por falta de opção.

Há algumas passagens de algo errado. Exemplo, quem sabe o que é ter lá fora dez graus abaixo de zero, não engole facilmente que pessoas sobrevivam por horas ou dias debaixo de casas ou carros. Os dois atores principais são fracos, porém Hartnett até não compromete tanto, faz sentir na tela a presença não de um Chuck Norris ou Capitão Nascimento, mas de um herói humano, como convém.

Para quem não quer sair da poltrona e deseja botar o coração velho de guerra para correr, uma boa opção.

30 DIAS DE NOITE (30 Days of Night, Nova Zelândia / EUA, 2007)

Direção: David Slade.

Elenco: Josh Hartnett, Melissa George, Danny Huston.

COTAÇÃO: ***