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FOLHEANDO
"300"
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Adriano
de Oliveira
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Para Richard Roeper, do jornal americano Chicago Sun-Times,
"300" é "o 'Cidadão Kane' das graphic
novels no cinema". Sua compatriota Claudia Puig, do
USA Today, compara a emoção transmitida pelo filme a "pouco
mais de um video-game na tela grande". Exageros
nas avaliações dos cronistas? Sim e não. "300"
realmente representa uma excelente adaptação cinematográfica
da graphic novel de Frank Miller, mas "Sin City"
(gibi do mesmo autor), ainda que com um visual menos rebuscado
(justamente por sua característica expressionista) tem
mais pinta de referência maior, de pedra fundamental.
Por um lado, fica perceptível que, se ainda não fizeram
um game baseado nos "Trezentos de Esparta", estão
perdendo tempo e dinheiro: a estrutura do filme de fato
tem a maior cara de um jogo do tipo, porém o lado emocional
trazido pela película vai muito além do que um deles poderia
proporcionar.
É assim, dividido pela crítica americana - e esse foi
apenas um exemplo -, que o novo longa de Zack Snyder ("Madrugada
dos Mortos") chega ao Brasil, três semanas após seu
lançamento no país de origem. Alguns aspectos referentes
a ele, positivos e negativos, entretanto são impossíveis
de serem negados. Não se pode esperar verossimilhança
histórica de "300" porque, como filme fiel à obra
que o originou, trata-se de uma versão estilizada dos
fatos em prol de uma dramatização cujo propósito essencial
é servir a uma ordem de estética. E tal estética é
simplesmente cativante: o aspecto gráfico do filme nos
remete imediatamente à HQ correspondente, como
se estivéssemos folheando um gibi na grande tela. O mérito
maior da visão de Miller para o épico episódio da luta
de trezentos bravos espartanos contra o numeroso exército
do Império Persa mora nesse apuro visual do qual grita
o filme em cada frame.
Um problema, portanto, está em convencer os puristas
das liberdades que "300" toma para contar sua história.
Escapando da questão da fidelidade aos livros acadêmicos,
o filme se vê novamente acuado pelos seus perseguidores,
agora por causa de seu frágil roteiro, o que constitui
verdade. Dissabores com o andamento da trama não são culpa,
a priori, de atuações insatisfatórias: Gerard Butler,
como Leônidas, dá conta do recado; um irreconhecível Rodrigo
Santoro no papel de Xerxes, não compromete de modo algum,
e David Wenham, como Dilios, está ok. Nem tudo
são flores, também: a britânica Lena Headey, ao
passo que surpreende por sua beleza, decepciona por sua
imutabilidade cênica, e Dominic West (do inesquecivelmente
ridículo "Os Esquecidos"), encarnando Theron, continua
fraco como sempre.
A trilha sonora lembra a de "Gladiador" de Hans
Zimmer, principalmente nos vocais aludindo aos de Lisa
Gerrard na referida obra, e aí o trabalho do pouco conhecido
Tyler Bates perde pontos, quesito originalidade.
É certo que tal filme capitaliza as atenções de uma platéia
que aprecia graphic novels, mas também afasta de
si uma certa fatia de cinéfilos, especialmente o público
feminino, por conter características típicas dos traços
de Frank Miller: forte violência gráfica (incluindo degolas
e sangue aos borbotões), exacerbado machismo, personagens
literalmente monstruosos.
O que desequilibra fortemente a gangorra de valores é,
sem dúvida, a estética, o gibi transposto à tela. E, nessa
linha, "300" vai a mil.
300 (idem, 2007)
Direção: Zack Snyder.
Elenco: Gerard Butler, Davis Wenham, Lena Headey,
Rodrigo Santoro, Dominic West, Michael Fassbender.
COTAÇÃO: ****
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