TRAILER MAU-CARÁTER
Alexandre Mesquita
 
 
Cinema é comércio de imagens, não há dúvida. Mas esse comércio pode acontecer em patamares diversos. Roland Emmerich é um típico exemplo de cineasta que joga no patamar do comércio mais literal possível, vide seu "clássico" Independence Day, filme assumidamente feito sob encomenda por interesses envolvendo a comemoração do 4 de Julho. Entanto, não há como negar que ele produziu cenas impressionantes, principalmente com as espaçonaves alienígenas gigantescas. E com elas, garantiu seu lugar na história do cinema duela a quien duela (em mim, duela muito). Já com Godzilla, a melhor coisa que esse filme horroroso fez foi inspirar Cloverfield. Com O Dia Depois de Amanhã, Emmerich surpreendeu, mostrou mais imagens-catástrofe, mas com um roteiro competente, contendo até algumas críticas ao status quo que lhe põe comida na mesa. Isso mostra quem apesar de geralmente optar pelo caminho mais grana, e a meu ver nada há de mal nisso, porque há também muita dificuldade em se fazer um filme comercial que se concretize como exemplar bem sucedido, Emmerich já mostrou que tem competência para fazer algo mais. Isso coloca expectativa em cada lançamento seu: deve-se ir com nada, pedras ou luvas para aplauso?

Sua mais nova assinatura se chama 10.000 A.C. (10.000 B.C., EUA / Nova Zelândia, 2008), agora disponível em DVD.

Na data do título, uma aldeia de caçadores de mamutes, ou manaks, estava ficando com fome porque as manadas do bicho não passavam mais pelas bandas da aldeia. A salvação moral era acreditar na velha parapsicóloga da aldeia que previa o nascimento de uma menina de olhos azuis com poderes mágicos que poderiam trazer os grandes manaks de volta, embora o como tenha me escapado. E a mesma previsão dizia que ela iria encontrar um grande guerreiro para ajudar a cumprir a profecia. Nasceu Evolet (Camilla Belle, beleza e mãe brasileiras, e apenas isso a seu favor) dos olhos azuis e nasceu D'Leh (Steven Strait, nada a seu favor), que foi abandonado pelo pai, acusado de covarde que fugiu quando mais precisavam dele. D'Leh sonhava matar um manak para garantir a manutenção da honra na família. Evolet é raptada por um povo escravizante e construtor de pirâmides, altamente avançado para os padrões da época, liderado por alguém que se julgava um deus de quatro patas. D'Leh e outros guerreiros partem atrás dela numa jornada por florestas e desertos, encarando dentre outros bichos extintos, superavestruzes carnívoras. Conversando com outros líderes de tribos, e principalmente com um tigre dentes-de-sabre, D'Leh descobre que ele era mesmo o cara da profecia.

O trailer de 10.000 A.C. é, na minha opinião, um dos piores de todos os tempos, mas não no sentido estético - nisso ele é bom, como geralmente o são os das grandes produções. Falo que é ruim no sentido de mau-caratismo, mesmo. As cenas mais interessantes são as que mostram os mamutes, tigres dentes-de-sabre e as pirâmides. O trailer roubou tudo que de bom que seu cliente poderia oferecer. Reclamam da pirataria que vaza filmes inteiros na internet antes do lançamento: nesse caso foi pior, porque o 10.000 A.C. que presta vazou todo e de forma oficial.

E a idéia que até prometia - ficção no berço da civilização -, que incorporou elementos da lenda de Atlântida e um pouco da teoria do livro Eram os Deuses Astronautas, não passou de uma história chocha, por vezes confusa, dando a impressão que o roteiro (de Harald Kloser e Roland Emmerich) foi escrito às pressas. O contexto dos protagonistas é um amor banal, com direito a uma reviravolta cruz-credo, para tudo terminar bem. Mas pode-se pensar que a maioria do público está apenas a fim de se divertir, e raso deve ser o produto oferecido, para exatamente não se levar muito dele para a porta de fora do cinema que não sejam em comentários do tipo "viu como aquela mina é gata?". Seria aceitável, concordo. Porém, Emmerich ainda tenta com uma música orquestrada aqui, imagens oníricas ali, papos com metáforas capengas acolá, dar umas pitadas de "meu filme é mais do que isso".

Ai, ai.

Se a imagem das espaçonaves de Independence Day destruindo o Empire State ficaram na retina, os mamutes de 10.000 A.C. são legais, mas não entrarão em lugar nenhum. São apenas o melhor do trailer, quero dizer, do filme, e ponto final.



10.000 A.C. (10.000 B.C., EUA / Nova Zelândia, 2008)

Direção: Roland Emmerich.

Elenco: Steven Strait, Camila Belle, Cliff Curtis.

COTAÇÃO: **