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Tarantino cantou, mas não levou. Há tempos atrás, o
cultuado diretor teve uma conversa com Pierce Brosnan
(antes deste largar de vez o papel de protagonista das
fitas mais recentes de James Bond), ato em que fez uma
curiosa proposta ao irlandês: ele se dispunha a dirigir
um filme de 007, com mais conteúdo e menos ação, desde
que tal fosse uma adaptação de "Cassino Royale",
primeiro livro de Ian Fleming em que aparece o celebrado
espião.
Os produtores da Eon tomaram conhecimento da idéia,
pelo jeito. E esnobaram Quentin. "Cassino..."
se tornou, sim, o 21º filme da série, mas com Martin
Campbell (de Goldeneye) na direção.
O pior é que, se Tarantino fora injustamente não-creditado
pela idéia, esta funciona bem, embora não idealmente.
Resetar James Bond, contando sua trajetória do início,
parece de fato ter sido a melhor opção possível para
se reciclar a série do agente.
Assim, conhecemos os passos iniciais de Bond no MI6,
nos deparando igualmente com um espião protagonista
mais humano e mais sombrio em relação aos similares
anteriores. Aqui entra o grande problema, ao menos aos
bondmaníacos saudosistas e rigorosos: ao longo de mais
de 40 anos, fomos acostumados, não se sabe se bem ou
mal, a ver 007 como um sujeito cool, cheio de
traquitanas tecnológicas para derrotar os inimigos e
com uma aura onipresente de refinamento. Assistir agora
a um James durão, grosseiro, sem apetrechos e incapaz
de escolher seu Martini ("O senhor prefere batido ou
mexido?", diz o barman. Bond responde: "E eu com isso?")
é, sem dúvida, um choque.
Há, em verdade, duas maneiras de enfocar "Cassino
Royale". Vendo a obra isoladamente do restante da
série, é um bom filme, protagonizado por um 007 diferente,
"em início de carreira" - precisa-se
levar em conta tal fato. Comparando-a com as demais,
soa estranha e inconsistente. A pedra foi quase totalmente
apagada, e o espectador sente uma ausência de identificação
com o personagem central: falta a fleuma de Sean Connery,
o sarcasmo de Roger Moore, o cinismo de Pierce Brosnan.
O agente britânico de Craig nasce sob o signo da crueza,
mas somente com os próximos filmes é que veremos sua
marca, e nesse ponto precisamos ter uma certa tolerância
com o novo filme.
Vale destacar o belo trabalho de Daniel Craig (rememorando
até, por seu tipo e jeito, o grande Steve McQueen),
na composição do personagem, no campo dramático e nas
cenas de ação, ao assumir tarefa tão difícil como essa.
Campbell, por sua vez, tenta mostrar o mesmo equilíbrio
do protagonista de seu filme na direção, e embora não
consiga plenamente, também não parece ser o responsável
pelo fato de que a "Cassino..." falta cadência.
A culpa identicamente não é do experiente montador Stuart
Baird; talvez seja devida ao roteiro irregular.
Notório que, coerência nunca foi o forte dos
Bond movies, mas focar em 007 como um sujeito
comum e ao mesmo tempo mostrá-lo como um guerreiro imbatível
(vide as intensas e inclusive, espalhafatosas, cenas
de ação) fica, no mínimo, meio deslocado, quanto mais
se comparado ao universo anterior do personagem, onde
o clima fantasioso permitia que isso acontecesse naturalmente.
Não é o caso, aqui, quando se optou por essa versão
"realista". O roteiro se redime, entanto, na trama bem
urdida, ainda que visivelmente imperfeita, e nos bons
diálogos.
Os efeitos da repaginação da cine-série pegaram até
os famosos créditos iniciais. No lugar da identidade
visual norteada pelas sinuosas formas femininas - reportando
diretamente às bondgirls -, a nova abertura prima
pelos traços rudes dos símbolos dos naipes de cartas
e muita sangreira. Que mau gosto!
Ainda bem que Eva Green (como Vesper Lynd) e Caterina
Murino (no papel de Solange) trazem a feminilidade necessária
para uma típica fita do agente, mesmo que à anos-luz
de distância de memoráveis "garotas Bond" como Daniela
Bianchi, Ursula Andress, Barbara Bach e Jane Seymour...
Felizmente, "Cassino Royale" vem para sepultar
de vez qualquer lembrança restante na memória do ridículo
filme homônimo de 1967, considerado não-oficial da série
(ainda bem!). Com cinco diretores (!) e um elenco estelar
- contudo, desorientado -, trazia uma infame abordagem
cômica ao mundo de James. A velha versão agora vai definitivamente
para o depósito dos grandes equívocos do Cinema. O "Cassino
Royale" de 2006, por sua vez, entra para a história
das poucas refilmagens superiores ao original. 007 está
de volta, do zero - ou melhor, de dois zeros (a famosa
licença para matar). Recarregaram a matriz: Bond
reloaded.
007 - CASSINO ROYALE (Casino Royale, 2006)
Direção: Martin Campbell.
Elenco: Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen,
Jeffrey Wright, Judi Dench.
COTAÇÃO: ***
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